04 janeiro 2015

Mal Adormecido



Devaneando sobre nuvens escuras
Observáveis por órbitas lunares.
Pesadas, escondem torturas.
Densas, bloqueiam tantos mares.

Acções perdidas no seu cansaço.
Evapora-se o tempo de luz ausente,
A nada permitindo o que faço.
Realidade tornada inexistente.

Fraco e forte me recrio vivo e morto,
Descansando enquanto me canso.
Tal paradoxo me retira o conforto,
Sou em simultâneo bravo e manso.

O desnível destabiliza a (des)mente.
Ansiedade por acordar da realidade,
Enquanto os sonhos orbitam em frente.
Tal força torna-se fragilidade.

Fraco, mantenho-me acordado,
Faço frente ao sonho real.
Sem força, como se anestesiado,
Cai-me das mãos este Ideal.

Nada suporto, tudo se vai.
Com fraca força a tempo inteiro,
Serei eu o próximo que cai?
Ou fechar-se-ão os olhos primeiro?

03 janeiro 2015

Palavra Perdida



Primeira palavra, para que saísses e ficasses, doloroso foi. Do pensar que te querias formar. Da escuridão a que te tentaste agarrar. Palavras formadas em formato de reflexão que desapareciam. Ideias soltas que se agarraram em caminhos de íris cheia, mas que se acabaram a desabraçar-se por se quererem formar.

Irónico… Irónico como as últimas que proferi, que consegui transformar, me esboçavam a desejar acções, a ultrapassar a palavra, superar o dito pelo feito. E agora… Agora custa assim começar a escrever. E acções? Não, nada disso. Muito longe estou disso. Um sentimento de voltar atrás. Ou talvez nem isso. Não sei se alguma vez vivi em tal estado.

Mas é certo que escrevo. É certo que superei algo. Devo eu ficar feliz com isto? Devo esboçar um sorriso por saber que fui capaz de voltar a fazer algo eu fazia antes? Algo que abandonei, a que fraquejei… E que no entanto, pode não passar de uma volta temporária… Palavra agora que silencia mais tarde…

É interessante que escrever passou a ser acção. Era algo natural, considerado instinto para mim. Era expressão do pensamento, do sentimento, da imaginação… Era algo que não precisava de séria construção.

A certo momento precisei de esforçar a escrita... Quis desenhar uma letra, carregar num botão. Tudo isso implicou a borracha, um traço por cima e de seguida o abandono. A acção (ou desacção) de desistência, derramando sobre mim mesmo qualquer linha que tivesse surgido previamente na cabeça, desaparecendo com o meu respirar.

O receio foi responsável. De alguma forma ganhei hesitação na partilha dos pensamentos. Guardei-os em mim, fora de alcance. Por vezes tentei mostrá-los, mas falhei quando me negava automaticamente com a justificação de que teria de ser forte e vivê-los sozinho. Cada vez mais me fechei neste mundo de ideias invisíveis por fora, proibindo-me a mim mesmo de me expressar. “Superei” o escrito. Acções, emoções, falsificação de expressões. Dizer que sim quando penso que não. Fazer algo que considero errado. Expandi os meus limites sem me aperceber deles. E a expansão não tem de ser sempre boa.

De qualquer forma, algo superei. Talvez o cansaço de nada fazer e tudo pensar me tenha feito ganhar coragem de retomar o caminho que construí anteriormente. Não. O caminho que pensei construir, mas que nunca passou do pensar. Certamente… Certamente avancei mais na acção do que antes. Mas certamente… Certamente tenho ainda de recuperar algo que perdi de mim… Algo que faz a minha cara, a minha pessoa. Sem essa minha essência, sem a recuperar, não vale a pena sequer passar ao próximo nível. Também os mundos se constroem por partes.

25 junho 2014

Ciclo



Como se entra num ciclo? Depende do ciclo, talvez. Mas certamente não tenho resposta para como entrei neste giratório de pensamentos e decisões. Por mais que tente mudar algo, não é suficiente para fugir desta maldição. Não lhe poderia chamar outra coisa, porque após tantas voltas descubro que quero produzir tanto e acabo sempre na cama a pensar no que não fiz e no que devia ter feito.

Sonhos trocados por desejos, o Futuro trocado pelo Presente… Cada volta é mais um dia desperdiçado, mal aproveitado… Ilusões de mudança que criam movimentos rotacionais. Sonho com a Lua e acordo com o Sol. Mas o que quero não é um novo dia… Quero acordar com a Lua e ver as estrelas, seguir o brilho de cada uma e deixar de girar no mesmo sentido.

E é isso… Giro no sentido oposto, em torno de mim, mas sempre em torno do Sol. A confusão serve-me de agrado, em que me parece que escapei da órbita. Percebo mais tarde que não, que estou no mesmo ponto. Tantas vezes que passo nele… A perspectiva certamente vai alterando… Mas considerando a imensidão do Universo, viver unicamente em torno de um ponto solar…

Pois… Tenho de criar um foguete e quebrar a minha Atmosfera. Até agora não chegou, a força não tem sido suficiente. Mais energia? Talvez uma nova tecnologia, um novo tipo de pensamento. Algo completamente fora do existente… Quebrar barreiras com um grito assustador. Surpreender com o ridículo. E então… Talvez assim encontre algo diferente de um ciclo.

06 junho 2014

Coração e Mente



Palavras escritas, papel ou digital.
Curtas, longas frases e expressões.
Mistura de sentidos como um bacanal.
Exposição de escondidas emoções.

Esse mundo está de mim afastado.
Palavras estão cada vez mais distantes,
Prometidas a um coração abalado
Após caminhos tão errantes.

Mas coração… Exiges demais.
Não és quem faz este meu mundo.
Porém afastas-me das coisas reais.
Procuro por ti o inútil a fundo.

Coração que quer presente…
Estás ausente de mim.
Domina-me agora a mente,
Que produz sempre com um fim.

Palavras não são suficientes.
Analisa acções e reacções.
Compara mentes com dementes.
Mas não entende corações…

25 fevereiro 2014

Escala da Vida



O tempo pára agora.
De nada mais interessa.
Segundo, minuto ou hora,
Sem razões para existir pressa.

As palavras ganham acções.
Vão à força da vontade,
De sonhos a lições.
Torna realidade.

A mim me decido.
Caminhos já escritos
Tornam-se um livro corrido.
Cortinado de passados meus ritos.

Olhos sensíveis à mudança do mundo.
Ao meu redor sou transformado.
O tempo trava a fundo.
Longe, o Passado.

Distancio-me dele.
Tornei-me instantâneo.
Sigo palavras que aparecem nele,
No Livro que me permite simultâneo.

Subo montanhas que se edificam em frente.
Desço vales aguçados abaixo de mim.
Vejo o Mundo e aquilo que sente.
Um sobe e desce sem fim.

Feliz vou, instante.
Deixo rasto no caminho,
Pista para quem quer ir avante.
Não paro, porque o tempo já parou.
Não importa se acompanhado ou sozinho.
Mãos doridas, pés cansados, continuo a escalar.
Se deslizo continuo, pois não quero ser quem sonhou.
Quero continuar a escalada, subir até poder tornar-me Luar.

E poder parar de sonhar…